Notícias da Áustria: a cena de um malaio e um chinês
Ontem (25/10) chegamos a Viena e já conhecemos várias pessoas do World Forum Theatre Festival. Tem vários grupos aqui. Um dos que conheci foi do Ira, que comecei a conversar. Inicialmente estavam com medo de falar sobre o Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, devido às perseguições políticas. Depois relaxaram e falamos mais sobre a opressão que vivem por lá sem uma livre possibilidade de opinião.
Assistimos o espetáculo do grupo de Singapura que foi muito interessante. Lá, depois do 11 de setembro, esta uma paranóia geral de terrorismo. Uma bomba foi acha no Metrô e todo o muçulmano é visto como suspeito. Os malasianos, muçulmanos sofrem muito preconceito por isto. A polícia os revista todo o tempo. Tem uma maioria chinesa e indiana que oprime os malaios. O governo criou peças de propaganda na TV – passaram para nós – onde o governo passa uma ideia de todos felizes e de que são um só pais. Estes filmes serviram de introdução para a cena.
Apresentaram a cena onde tinha, no início, um malaio buscando emprego. Ao tentar entrar num prédio que tinha uma entrevista marcada a polícia não o deixa entrar e revista toda sua bolsa jogando suas coisas no chão. O “interessante” é que na dupla de policiais, tem um malaio e um chinês, o malaio é o policial “bonzinho” que faz tudo o que o chinês manda e conversa com ele, pois os malaios não falam mandarim, nem inglês e vice-versa. A cena principal acontece num trem. Onde tem um malaio sentado e chega uma chinesa com outro malaio companheiro de trabalho que o diálogo entres os dois já mostra que a chinesa é beneficiada no trabalho pelo fato de ser chinesa, com o patrão deles, e o empregado malaio sofre a opressão. Logo depois chegam um casal indiano e chinês que falam sobre os preconceitos que a família de um tem pelo outro e pelo fato de depois de meses de relação a mãe do chinês continua chamando a namorada e “amiga do filho”. Num dado momento o trem para por algum problema e ai começa a paranóia de bomba no trem.
A chinesa começa a achar o malaio desempregado, achando o suspeito, pois este esta vestido como muçulmano diferente do malaio empregado que se veste como “ocidental”. Ela fala da possibilidade do malaio desempregado ser terrorista. O chinês e a indiana também falam disso. A chinesa muda de lado e vai sentar junto com o casal índia/china, ficando o malaio empregado e o malaio desempregado no mesmo banco. O chinês exige que o malaio empregado fale com o malaio desempregado abre a bolsa dele, pois o chinês não fala malaio. O malaio empregado pergunta ao desempregado se ele pode abrir a bolsa. Ele pergunta por que. O chinês diz que ele é suspeito, se recusou a abrir a bolsa então ele é um terrorista.
Continua este clima com várias intimidações ao malaio desempregado via o malaio empregado que fica de tradutor. Malaio desempregado se levanta e o acusam de terrorista. O trem vai andar quando chega um segurança do trem e o chinês o acusa o malaio desempregado de ser terrorista e o guarda o intima.
Peça interesse e com diálogos interessantes, isto é resumo.
No fórum algumas intervenções, desde mostrar o que tem na bolsa, dizer para os outros também mostrarem primeiro, mas não vi nenhuma forte. Eu entrei e quando o malaio empregado vem servir de tradutor pro chinês, a primeira coisa que fiz foi questionar por que ele estava fazendo o que o chinês estava pedindo. Que aquilo era o micro momento das opressões que vivemos todo o dia por parte dos chineses e indianos e que ele estava simplesmente sendo um serviço dos chineses. Então o questiono se ele era um malaio de verdade ou se estava a serviço do opressor. Ele balança. Peço que ele aperte minha mão como sinal de que nós malaios temos de estar juntos. Quando apertamos a mão, chinês se desespera é chamam de terrorista. Então pergunto se nunca viu Nelson Mandela apertar mão de um branco, Yasser Arafat de Yitzhak Rabin e outros exemplos. Ao final o importante é que reafirmo a necessidade dos malaios estarem juntos contra as opressões. Foi isto mais ou mesmo.
por Geo Britto, sociólogo e Curinga do Centro de Teatro do Oprimido | geobritto@cto.org.br
