Desenho de Samy Ferreira das Chagas para o projeto Teatro do Oprimido na Saúde Mental

A parceria estabelecida há cinco anos entre o Centro de Teatro do Oprimido e o Ministério da Saúde, por intermédio do Fundo Nacional de Saúde, para capacitação e acompanhamento de profissionais da área de saúde mental do SUS nas técnicas do Teatro do Oprimido, tem levado a transformações políticas e a uma relação mais humana entre os pacientes, seus familiares, estes profissionais e a sociedade. Até hoje, mais de 250 profissionais já foram capacitados e estão aplicando as técnicas do Teatro do Oprimido em hospitais (inclusive no Manicômio Judiciário Heitor Carrilho e o Hospital Psiquiátrico de Jurujuba) e centros de atendimentos. Desde que o teatro entrou na vida destas pessoas os períodos de depressão diminuíram, a adesão ao tratamento aumentou e a vontade de viver ressurgiu.

A seguir, um breve panorama do programa Teatro do Oprimido na Saúde Mental, cuja logomarca foi desenhada por Samy Ferreira das Chagas, usuário da saúde mental no Rio de Janeiro.

“AQUELE REMÉDIO DO TEATRO”

A psicopedagoga Cláudia Simone, curinga* do Centro de Teatro do Oprimido – CTO, conta que um dia um sujeito interrompeu o ensaio de um grupo de Teatro do Oprimido, que acontecia no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba/RJ, e pediu para tomar “aquele remédio do teatro” para melhorar como os outros e não ter mais que ficar internado.

Muitas coisas não conseguem ser expressas somente com a palavra, numa conversa ou terapia, é preciso usar o corpo, a imagem e o som. E é isso que o Teatro do Oprimido oferece. A teatralização de um problema, pelas técnicas do Teatro do Oprimido, cria um distanciamento que permite aos participantes (atores e espectadores) observarem o que de fato está acontecendo. Vestindo um figurino, utilizando-se de uma cenografia, música e dramaturgia, o usuário e o profissional da saúde mental, agora atores, protagonistas de suas próprias histórias, podem transmitir o que a simples conversa não é capaz de comunicar. Assim, a possibilidade de transitar entre vários personagens no palco, ora sendo usuário, ora sendo médico, ora sendo filho, filha, pai ou mãe, permite que eles se vejam de outra maneira e sejam vistos de outra forma também, minimizando o estigma da doença mental e trazendo a questão dos direitos humanos para a sociedade.

Coordenador Nacional do programa Teatro do Oprimido na Saúde Mental, o sociólogo Geo Britto, afirma que, “é importante considerar a questão do Teatro do Oprimido como possibilidade de uma metodologia artística que proporciona o diálogo. Um exemplo é que atualmente os CAPS vêm utilizando o Teatro do Oprimido nas suas assembléias (que reúnem os usuários, seus familiares e profissionais dos CAPS), onde muitas vezes não se conseguia falar coisas que foram ditas e trabalhadas através da imagem, do teatro. E isso é uma importante forma de resultado a se considerar.”

O Teatro do Oprimido não apresenta respostas, mas procura fazer as perguntas certas. E uma das principais perguntas na relação entre usuários, seus familiares, os profissionais da saúde mental e da sociedade como um todo é: o que fazer? É importante considerar que os usuários também têm problemas de transporte, alimentação, desemprego, racismo, sexismo, corrupção etc. Através do teatro, da encenação de um problema ou conflito real, pode-se chegar a um entendimento das condições dos protagonistas. Através do teatro começa a existir uma nova relação, mais humana, entre usuários, familiares e profissionais. O diferente é igual a gente. “Num contexto onde tentam esconder o diferente, o Teatro do Oprimido vem estimulando a sua visibilidade como cidadão e agente transformador de sua própria história. O diferente sobe no palco, conta sua história, vê e é visto por todos sem negar a sua condição de usuário, porém sem se sentir inferior mais semelhante com sua diferença”, destaca Cláudia Simone.

O teatro muda tudo, porque os diferentes voltam a se sentir como parte da sociedade. Desde que o teatro entrou na vida destas pessoas com transtornos psiquiátricos, os períodos de internação e depressão diminuíram, a adesão ao tratamento aumentou, o consumo medicação baixou e a vontade de viver ressurgiu. Isso é uma constatação.

HISTÓRIAS DE SUPERAÇÃO

Eliana Guimarães, 50 anos, atriz do GTO Pirei na Cenna, paciente do Hospital Psiquiátrico Jurujuba, em Niterói, em uma mesa de debates com Augusto Boal, Pedro Gabriel Delgado, da coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde e Luis Tenório, secretário de saúde de Niterói, contou sua história de vida: “Antes de fazer Teatro do Oprimido, eu tinha preconceito comigo mesma, tinha vergonha de ser usuária de Saúde Mental, tinha vergonha de falar com as pessoas, achava que elas sempre iam me discriminar. Escondia sempre que possível que já tinha sido internada. Mas depois do Teatro do Oprimido, deixei de esperar pela noite para dormir logo, mas querer que o dia seja longo, para poder mostrar para as pessoas que quem se trata em saúde mental, também pode produzir, poder criar, pode pintar, levar uma vida normal. Eu que vivia deitada no tapete da casa da minha Tia, pensava que não seria nada, hoje estou aqui nessa mesa, falando da minha história de vida, do Teatro do Oprimido, que é diferente dos outros Teatros, ele propõe transformar a realidade, e a minha mudou, falo abertamente que sou usuária de Saúde Mental, porque quero mudar o preconceito que as pessoas têm com elas mesmas e mostrar que todos têm direito a ser feliz”.

Há cerca de quatro anos, em uma oficina com integrantes do GTO Pirei na Cenna, Enéias Lúcio da Silva, 50 anos, marceneiro, paciente do Hospital Psiquiátrico Jurujuba, em Niterói, muito lentamente disse “Cláudia Simone, eu quero apresentar na escola onde eu estudei, que fica no meu bairro”, empolgada ela respondeu “claro Enéias, vamos lá. Mas porque mesmo você quer apresentar nesta escola?” A que ele respondeu dizendo que “no meu bairro, todo mundo me joga pedra, me chama de maluco, não me chamam pelo nome, só de Dalua. A diretora, dessa escola, disse para mim, que eu nunca seria nada, que eu não poderia fazer muita coisa na vida, porque eu sou usuário de saúde mental. Eu quero voltar lá e mostrar para eles que eu sou ator e que consegui fazer muita coisa, até uma peça que fala de loucura e Aids. Coisa boa para as pessoa, quem sabe assim eles me respeitam”. Assim foi. Enéias fez todo o contato, com uma carta escrita por Cláudia Simone, um folder do Pirei na Cenna, com uma data para apresentação e convite para a comunidade. Chegado o dia da apresentação, Enéias muito nervoso, suava frio e os outros integrantes do grupo, já sabedores do acontecido e da importância dessa apresentação davam força para ele. O pátio da Escola  Leopoldo Fróes, em Niterói, estava lotado, com jovens, crianças, adultos e velhos, amigos, vizinhos do Enéias, conhecidos e desconhecidos dele e do grupo. Ouvimos por alguns minutos em sussuros tímidos “Dalua, maluco, Dalua, o que você tá fazendo ai”. Até que tudo começou a virar silêncio. A peça ‘Um Amor Muito Louco’ começava. Na encenação o grupo fala de loucura, prevenção a DST-AIDS, aborda o preconceito ao usuário de saúde mental, com uma teatralidade encantadora. Paralisada e surpresa ficava a platéia a cada entrada de personagem. Quando Enéias entrou em cena, podia se ouvir uma agulha cair no chão, foi assim por um segundo, até que um choro entrou e quebrou o silêncio. Era a diretora, no meio da platéia, que não consegui crer que aquele louco, que eles jogavam pedra todo dia era um louco artista ou um artista louco. Terminada e peça, só se ouvia “Enéias, Enéias, Enéias”, e Enéias disse baixinho “deu certo Cláudia, eles lembraram do meu nome”. A diretora em prato subiu ao palco e publicamente pediu desculpas a Enéias. Ela assumiu que havia dito há ele que ele não seria nada, que não faria nada diferente, por tomar remédio. E hoje ela viu que ele poderia fazer muita coisa, tanto que fez e faz teatro, um teatro diferente, o Teatro do Oprimido, que ele era capaz e não incapaz como ela havia pensado e tantos outros ali pensavam. Passado uma semana da apresentação na escola Enéias chega no grupo empolgado e diz “Cláudia, ninguém me chama mais de maluco, de Dalua na minha rua. Todo mundo me chama de Enéias, de artista. Diz que eu sou muito bom e que querem ver a peça de novo e mostrar para quem não viu. Eles querem até vir assistir aqui no hospital. Voltei a ser Enéias, agora eu sou gente de novo, e ninguém me joga  pedra. Com o Teatro do Oprimido eu pude mostrar que sou igual mais diferente”.

A NOVA ONDA DA SAÚDE MENTAL

A troca de experiências entre o Teatro do Oprimido e a Saúde Mental não é recente, nem restrita ao território nacional. Desde os anos 80, na França, em Cherbourg, profissionais da área de psiquiatria trabalham com as técnicas do Teatro do Oprimido. O mesmo acontece em Bradford, Salford e Hebden Bridge na Inglaterra. No Brasil o método começou a ser aplicado nos anos 1990.

Em 2004, em contato com a Coordenação Nacional de Saúde Mental, através do Dr. Pedro Gabriel Delgado, foi aprovado um projeto piloto para trabalhar as técnicas do Teatro do Oprimido com portadores do sofrimento psíquico e profissionais da saúde mental, inicialmente no Rio de Janeiro e depois ampliado para São Paulo.

A partir de 2008 o projeto se transformou no programa Teatro do Oprimido na Saúde Mental, patrocinado pelo Ministério da Saúde, por intermédio do Fundo Nacional de Saúde, atua nos Centros de Atenção Psicossociais – CAPS e Unidades Básicas de Saúde – UBS dos Estados (pólos) de São Paulo, Rio de Janeiro e Sergipe. Nestes anos já foram capacitados mais de 170 profissionais que trabalham com as técnicas do Teatro do Oprimido em benefício dos portadores do sofrimento psíquico. O objetivo para os próximos meses é capacitar outros 50 profissionais, nos três pólos.

Quando se fala em profissionais da saúde mental, pensa-se nos médicos, enfermeiros e psicólogos, mas não apenas estes são capacitados e também beneficiados com as técnicas do Teatro do Oprimido, também os técnicos em enfermagem, seguranças, porteiros, pessoal da limpeza e cozinha, músico terapeutas, terapeutas ocupacionais, ou seja, todos aqueles que têm maior ou menor contato com os usuários da saúde mental e seus familiares. Ao que parece, a eficácia do Teatro do Oprimido na Saúde Mental se dá justamente porque todos participam.

“MAS CADÊ O RESULTADO?”

Segundo teatrólogo Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, falecido no dia 2 de maio de 2009, o que se busca neste trabalho é desenvolver as capacidades estéticas que todos os indivíduos têm, com o objetivo de que eles analisem os problemas do presente, usando a experiência do passado, para inventar o futuro. “Numa sociedade em que se procura excluir o diferente, inventar o futuro é mais do que necessário. Nós temos medo dos diferentes, mas quando a gente se olha no espelho e diz “este sou eu”, está dizendo que é diferente. Portanto, diferentes somos todos nós. Por isso, sentimos medo e angústia com a exclusão daqueles diferentes que são tão semelhantes a nós mesmos”, afirma Boal. “A gente trabalha sobre a possível superposição entre o delírio patológico e o delírio artístico, e o uso dos ritmos na criação de diálogos e de estruturas sociais. O teatro em geral já é uma forma delirante de arte. A gente já fez algumas experiências muito lindas. Às vezes as pessoas perguntam: “Mas cadê o resultado?”. O resultado é que em muitos desses CAPS que a gente trabalha o consumo de medicação tem reduzido. O teatro não cura, tranquiliza e dá mais um pouco de felicidade para as pessoas, para não ficarem tão angustiadas”, conclui.

17 MILHÕES DE BRASILEIROS SOFREM DE TRANSTORNO MENTAL GRAVE

Segundo pesquisa recente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 17 milhões de pessoas, ou 9% da população brasileira, sofrem de transtorno mental grave. Os mais acometidos por essas doenças são os indivíduos de classe social baixa, pouca escolaridade e moradores das periferias das cidades. E ainda: 12,6% dos brasileiros entre 6 e 17 anos já apresentam sintomas de transtornos mentais importantes. Isso equivale a dizer que cerca de 5 milhões de crianças e adolescentes sofrem de algum distúrbio psicológico. Deste total, aproximadamente 3 milhões têm sinais de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o transtorno psicológico mais frequente na garotada.

Já a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que os distúrbios do humor afetem cerca de 20% da população mundial e a cada ano são registrados 2 milhões de novos casos. Em 2020, a depressão será o principal transtorno mental a atingir moradores dos países em desenvolvimento, como o Brasil.

por Ney Motta, assessor de comunicação e imprensa do CTO