Jamais pensei em fazer teatro, sempre fui muito tímida e nem pensar em me dirigir a tantas pessoas quando isso se faz necessário. Carioca, nasci em 11 de setembro de 1959 de parto natural em casa; meus pais, semi-analfabetos e vindos de zona rural, me educaram para ser dona-de-casa, fazer faculdade era um luxo. Entrei para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro e me formei em Letras – Português e Literatura, quando ouvi falar de Boal pela primeira vez e li seu livro “Teatro do Oprimido e outras Poéticas Políticas”.

Em 1986, já professora da rede pública do município do Rio, recebo um convite para participar de um curso com Augusto Boal no CIEP do Catete, de julho a setembro. Curiosa  fiquei nos primeiros dias, assustada com a idéia de me apresentar em cena durante toda a oficina e apaixonada ao descobrir que eu podia criar, a partir das minhas histórias de  vida, um espetáculo de Teatro-Forum  e transformar em cena, todas as opressões que vivi e sofri… O espetáculo chamava-se “Família” onde eu fazia uma adolescente grávida que sofria ameaças de ser expulsa de casa pelo pai violento, enquanto a mãe submissa tentava apaziguar os ânimos. Ao final eram muitos os aplausos (inclusive de jovens e idosos que nunca assistiram uma peça teatral em toda sua existência) aplaudida pelo público lotado nos refeitórios dos CIEP’s onde nos apresentamos…. Aí não tem volta! Só um longo e generoso caminho a trilhar.

Desde então me divido entre dar aulas de Português no Ciep Operário Vicente Mariano no Complexo da Maré pelas manhãs e compor a equipe do Centro de Teatro do Oprimido.

Ao longo desses anos, ministrando oficinas e montando espetáculos para apresentá-los nas ruas e em teatros, o trabalho foi intenso:  conheci de perto o movimento sindical das mais diversas categorias (Sindipetro, SEPE, SinPro, SinMed, Urbanitários, Engenheiros,…) ; entrei em muitas comunidades (Borel, Rocinha, Acari,…), instituições (Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira, CEASM, Associação de moradores de diversos bairros, …) e muitos grupos foram criados: Borel rima com Céu (jovens moradores do Morro do Borel); As princesas de Dom Pedro (usuárias  de Saúde mental) e ……. com grupo da terceira idade de 64 a 88 anos do Hospital Psiquiátrico Dom Pedro II, atual Nise da Silveira – Engenho de Dentro); o primeiro grupo de trabalhadoras domésticas “Tá limpo no palco” de 1994 a 1996 e o segundo de 1998 até hoje, as Marias do Brasil.

Claudete Félix é professora e curinga do Centro de Teatro do Oprimido desde 1986.

E-mail: claudetefelix@ctorio.org.br