Tenho um sentimento que carrego em mim, desde muito jovem, de que não podia viver sem fazer teatro. De onde ele vinha?

Não sei dizer precisamente, principalmente porque pouco me lembro de ter ido ao Teatro quando jovem, mas a primeira vez que fui marco-me para sempre.

Passei a imaginar como seria estar no palco, fazer diferentes personagens, contar histórias, fazer as pessoas rirem e chorarem, ser quem eu quisesse ser, de todas as cores, tamanhos e países.

Passei a respirar este desejo e freqüentar as escondidas um grupo de teatro da minha cidade. Porque precisava me esconder?

Meu pai não aceitava a idéia e achava que teatro era coisa de mulheres vadias, prostitutas, drogados, de gente que não tem o que fazer. Se não fosse isso, teatro era para gente que tem dinheiro, que pode viver sem fazer nada. Mas com certeza teatro não era para mim, uma jovem nascida em Volta Redonda, na comunidade do Eucaliptal, negra de cabelos duros.

Não era somente meu pai que pensava assim, alguns menos amigos, debochavam de minha escolha profissional e ideológica, dizendo que eu não sairia da senzala, que não passaria de copeira nas peças que atuasse. As pessoas eram cruéis e repetiam sempre que eu não podia fazer teatro, que não era coisa para mim. Quem pode fazer Teatro¿ me perguntava sem parar. E me sentia morrendo a cada dia, que o palco parecia mais longe de mim. Era uma necessidade vital, sem teatro, meu sorriso morria nos lábios e os brilhos de meus olhos se apagavam.

Em 1986, minha cidade natal, fui apresentada ao Teatro do Oprimido. O que mudou radicalmente minha vida. Passei a ler Boal, a querer mais. E mais entender que teatro era esse.

Lembrei-me das muitas vezes em que pensei desistir, chegando quase a acreditar que fazer teatro era privilégio de poucos. Que não era para mim.

Por que não acreditei? É fácil dizer. Porque Boal disse em vários idiomas que cada ser humano tem em si mesmo todas as funções teatrais e, principalmente, que “SER HUMANO É SER TEATRO”.

Senti-me autorizada, encontrei alguém que pensa como eu, alguém que criou um teatro que me incluía, que eu podia fazer. Respirei aliviada.

Mas não era tão fácil assim, como viver de teatro?

Minha formação em pedagogia foi uma necessidade imposta pela condição de que não pretendia ser sustentada pela família e muito menos passar fome na capital.

Passei quatro anos na faculdade lendo todos os tipos de pensadores da Educação. Mas era como se ali meus neurônios estivessem adormecidos, esperava os momentos vagos para ler Teatro do Oprimido.

Numa busca cega, lia a esmo, procurava tudo o que podia nas bibliotecas da cidade, e não conseguia sequer deter minha avidez de saber e fazer Teatro do Oprimido. Procurando aprender não estava aprendendo, só me confundia.

Com diploma na mão, sai para procurar espaços de atuação. Claro que ao me apresentar não conseguia esconder o quanto desejava trabalhar com teatro, mas o diploma que tinha, não abria esta porta, então, sorrateiramente me fazia pedagoga, que sabia um pouco de Teatro do Oprimido.

Neste fazer pedagógico tenho uma experiência de mais de 10 anos, onde o Teatro do Oprimido sempre foi o pano de fundo em minha trajetória profissional.

Minha cabeça girava de um lado para outro, procurava tirar o Teatro do Oprimido dos bastidores, onde ele foi colocado por uma necessidade de sobrevivência e não conseguia. Meu pensamento estava se tornando pedagógico demais. Foi ai que descobri que durante todo o meu curso de formação Universitária, meu modo de ver a vida havia mudado um pouco, estava confundindo o caráter pedagógico do Teatro Oprimido com Teatro do Oprimido.

Mas minha necessidade de fazer em Arte não me abandonava, então a necessidade que tenho, deveria virar a ARTE que eu queria. Fiz pedagogia para me sustentar e poder fazer Teatro do Oprimido. Era chegada a hora.

Caminhos que não passam de uma Volta Redonda

Em 1997, resolvi romper com o fazer pedagogia através do Teatro do Oprimido. Queria fazer Teatro do Oprimido, queria dialogar para transformar.

Parecia-me que jamais cairia em outra cilada como a que descrevi anteriormente. Qual não foi a minha surpresa, quando procurando entender e aplicar melhor o Teatro do Oprimido, fui acometida de uma pedagogigice aguda e que demorei a me dar conta.

Em 1997 iniciei um trabalho em Saúde Mental.

Tudo corria bem, formei o grupo Pirei na Cenna, que já existe há uma boa década.

Este foi para lá de satisfatório. Uma das peças de Teatro-fórum criada pelo grupo È Melhor que Remédio dar, surpreendeu nossas expectativas.

Mas minha ânsia em multiplicar esta forma de abordagem em Saúde Mental, foi aos poucos colocando o Teatro de volta aos bastidores.

Deste Trabalho com os portadores de sofrimento psíquico, surgiu o convite para utilizar o Teatro do Oprimido na abordagem da sexualidade.

Empolgada com este novo desafio, não percebi que aos poucos a razão principal do Teatro do Oprimido que é ser teatro, estava sendo relegada a segundo plano. Passei a utilizar o Teatro do Oprimido como essencialmente pedagógico , essencialmente terapêutico.

Em conversas com Boal e Bárbara Santos do Centro de Teatro do Oprimido, aos poucos fui despertando para as armadilhas que criei na tentativa de difundir o Teatro do Oprimido.

Aplicar os exercícios, jogos e Técnicas do TO em abordagem de temas na Oficina de sexualidade; não é fazer Teatro do Oprimido.

Fiquei chocada ao ouvir isto de Bárbara, não queria aceitar de forma alguma que estava pensando pedagogicamente novamente sobre Teatro e agindo a partir deste prisma. Precisava avançar. Nada melhor do que ser curinga.

Decidi: EU QUERO SER CURINGA

Tem 2003, fui convidada a fazer parte da equipe de Boal. Toda essa trajetória e esta descoberta me deixaram extremamente inquieta. Essa inquietação engloba o como fazer, o como aplicar e como propagar o Teatro do Oprimido, sem perder sua principal essência, que é o Teatro. Apreensiva, virei um corpo inteiro de interrogações: quais os passos que estou dando em direção a minha formação como Curinga? Quanto tempo leva? Como trabalhar temáticas com a metodologia do TO, sem que o teatro fique em segundo plano? Não estarei eu, tendo ataques de pedagogigice, por não estimular o meu neurônio estético? Como não dar uma outra volta redonda em meu desejo de multiplicar o Teatro do Oprimido? Por mais diversos que sejam os caminhos, por inúmera que sejam as voltas que venha a dar, de uma coisa eu tenho certeza: eu quero fazer Teatro do Oprimido, hoje sou Curinga e meu pai admira meu trabalho. Consegui responder a pergunta que mais me inquietou na vida: quem pode fazer teatro?

Todo e qualquer ser humano!

Cláudia Simone é psicopedagoga e curinga do Centro de Teatro do Oprimido

E-mail: claudiasimone@ctorio.org.br